Eduardo Militão
O Partido dos
Trabalhadores decide na próxima semana se expulsa, adverte, suspende ou
mantém na legenda dois
deputados que são
abertamente contrários à legalização do aborto,
uma das bandeiras assumidas pelo partido do presidente Lula durante
encontro nacional de militantes. O relatório da Comissão de Ética sobre
a situação dos petistas Henrique Afonso (AC) e Luiz Bassuma (BA) ainda
não está pronto.
O documento deve
ser concluído até a manhã do dia 17 de setembro, quando os 81 membros
do Diretório Nacional do PT se reúnem em Brasília para votarem as
recomendações da Comissão de Ética do partido. A reportagem procurou o
presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (SP), mas ele não
retornou os recados deixados.
Segundo a
Secretaria de Mulheres do PT, Bassuma e Henrique Afonso descumprem uma
resolução partidária, aprovada em 2007, que defende a "defesa da
autodeterminação das mulheres, da descriminalização do aborto e
regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público,
evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de
mulheres, na sua maioria pobres e negras, em decorrência do aborto
clandestino e da falta de responsabilidade do Estado no atendimento
adequado às mulheres que assim optarem".
Outra resolução,
do 10º Encontro Nacional de Mulheres do PT, realizado em 2008, defende
que sejam expulsos os militantes "que não acatarem e não respeitarem as
resoluções partidárias relativas aos direitos e à autonomia das
mulheres". O texto determina a retirada de projetos de lei que
“prejudiquem o direito das mulheres de autonomia sobre seu corpo e sua
sexualidade”.
Liberdade
de expressão
Bassuma e Henrique
Afonso dizem que suas convicções pessoais têm que ser aceitas porque
isso significa garantir a liberdade de expressão e o direito à vida,
previsto na Constituição. No ano passado, o
Congresso em Foco
procurou petistas a favor e contra o direito ao aborto em qualquer
situação. Todos disseram que não há motivo para expulsão dos que agem
por convicções pessoais ou “de foro íntimo”.
Na Constituinte
de 1988, o PT decidiu não tomar posições partidárias de caráter íntimo.
"Lembro até que o Plínio de Arruda Sampaio, hoje no Psol, era contra o
aborto. Não cabe fechamento de questão", afirma o senador Paulo Paim
(PT-RS), defensor do direito ao aborto.
Historicamente, a esquerda teve relacionamento conflituoso com as
religiões, embora em muitos momentos tenham caminhado juntas. Setores
progressistas da igreja católica e de várias outras crenças tiveram
papel decisivo, por exemplo, na luta contra a ditadura, na formação e no
crescimento do PT.
Mas, para Karl
Marx, a religião era o “ópio do povo”. Na prática, temas como aborto,
relações homossexuais e uso de células-tronco opuseram crentes e
esquerdistas.
Ameaçado de
expulsão, o deputado Luiz Bassuma entende que os problemas entre a
religião e a esquerda decorrem de visões de mundo antagônicas.
“Predomina nos partidos de esquerda uma visão de mundo mais
materialista. A minha é espiritualista”, diz o deputado, que é espírita
kardecista.
O deputado Gilmar
Machado (PT-MG) acredita que Marx confundiu religião e Deus. “Ele
cometeu alguns equívocos porque não conheceu Jesus e a Bíblia”, disse o
vice-líder do governo no Congresso, que é evangélico.
Explicações
O senador Flávio
Arns (PR) – que deixou o PT porque a legenda decidiu não apoiar as
investigações contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) – já
teve que prestar explicações aos eleitores sobre temas espinhosos que
mostrariam incoerência entre suas convicções e o programa do partido.
Os eleitores
queriam saber por que ele estava numa legenda que tinha decidido apoiar
o aborto. “Me causou muito mal-estar. Eu tive de dizer que, quando
ingressei no PT, isso não fazia parte do programa”, conta Arns, católico
e sobrinho do bispo dom Paulo Evaristo Arns e da coordenadora da
Pastoral da Criança, Zilda Arns.
Os deficientes
físicos também reclamaram do senador quando ele votou contra o uso de
células-tronco embrionárias nas pesquisas científicas. “Os eleitores
acham que esse é o caminho para a cura. Mas eu expliquei que as
células-tronco adultas apresentam resultados muito melhores que as
embrionárias”, disse Arns.
O senador já
recebeu um convite do Psol para engrossar a bancada do partido. Está
analisando. O Psol é favorável ao direito ao aborto, apesar de sua
presidente nacional, a vereadora Heloísa Helena, ser contra